Até que ponto ser o “dono da razão” nos torna, de fato, corretos?
Qual razão?
A de todos? A minha apenas? Um consenso universal? Ou simplesmente a imposição da minha vontade?
E onde termina a defesa legítima de uma convicção e começa o autoritarismo?
Jung escreve:
“A consciência e a vontade podem ser consideradas como as conquistas supremas da cultura humana. Mas de que serve uma moralidade que destrói o homem? Melhor do que a moralidade é a harmonização do querer e do poder. Moral à tout prix – sinal de barbárie? Frequentemente, acho preferível a sabedoria.”
(JUNG; WILHELM, 2025, p. 32).
Talvez seja necessário começar por uma distinção fundamental: defender um ponto de vista não é o mesmo que impô-lo aos demais.
Consciência e vontade não são prerrogativas exclusivas daqueles que pensam como nós. São possibilidades humanas. E é justamente dessa constatação que nasce uma exigência difícil: reconhecer no outro o direito de chegar a conclusões diferentes das nossas.
A isso podemos chamar pluralidade de pensamento.
Ideias surgem e precisam ser submetidas ao atrito. Questionadas. Contestadas. Refinadas.
Há nisso algo semelhante à lapidação de um mineral bruto: seu valor não diminui porque sofreu golpes. Ao contrário, é justamente o trabalho de lapidação que permite revelar sua forma.
Uma ideia que atravessou o exame de diferentes consciências — sobretudo daquelas que não possuem vínculo afetivo com sua preservação — talvez tenha sido mais profundamente pensada do que aquela protegida de toda contestação.
Diríamos que passou pelo teste de fogo.
E nada há de errado nisso.
O problema começa quando já não desejamos defender uma ideia, mas imunizá-la contra o questionamento.
Quando a convicção deixa de precisar de argumentos e passa a precisar de submissão.
Quando discordar já não significa pensar diferente, mas tornar-se inimigo.
E quando, para preservar determinada ideia de moralidade, torna-se necessário silenciar, rechaçar ou perseguir aquele que dela diverge, talvez já não estejamos protegendo a razão.
Talvez estejamos protegendo algo em nós.
É nesse ponto que a pergunta se desloca.
O que acontece com uma consciência quando sua certeza se torna tão rígida que nenhuma alteridade consegue penetrá-la?
Jung escreve:
“Um colapso é feito de uma consciência intelectual exaltada e unilateral, que se afastou demasiado das imagens primordiais. Mas bem antes da catástrofe manifestam-se os sinais do extravio, tais como uma atrofia do instinto, nervosismo, desorientação e emaranhados de situações e problemas insolúveis etc.”
(JUNG; WILHELM, 2025, p. 32).
A palavra que aqui me interessa é unilateralidade.
Uma consciência pode tornar-se extremamente desenvolvida em determinada direção e, paradoxalmente, perder progressivamente a capacidade de reconhecer aquilo que ficou fora de seu campo de visão.
Quanto mais absoluta a identificação com determinado ponto de vista, menor talvez seja o espaço disponível para tudo aquilo que o contradiz.
Mas aquilo que não encontra lugar na consciência não deixa, por isso, de existir.
A tensão permanece.
No Ensaio nº 001, Ignorância perpetuada — e a ilusão de estar consciente, abordamos as imagens primordiais como constituintes do inconsciente coletivo: disposições profundas da psique que ultrapassam a experiência estritamente individual.
Aqui, Jung chama atenção para o risco de uma consciência intelectual que se afasta demasiadamente desse substrato e passa a operar como se pudesse existir de maneira autônoma, sem relação com aquilo que a sustenta e a contradiz.
Há então uma espécie de inflação da própria consciência.
E talvez seja justamente aí que uma certeza possa adquirir uma forma curiosa:
quanto menos capaz de dialogar com seus próprios contrários, mais necessita afirmar-se como verdade absoluta.
Já não há investigação.
Há defesa.
Já não há dúvida.
Há certeza.
Já não há encontro.
Há posição.
Nesse movimento, consciente e inconsciente deixam de estabelecer uma relação suficientemente permeável. O primeiro procura sustentar sua unilateralidade; o segundo continua carregando aquilo que foi recusado, reprimido ou simplesmente não reconhecido.
A tensão entre os polos não desaparece.
Ela apenas deixa de ser percebida conscientemente.
E quando o conflito já não pode ser resolvido pelas ferramentas que o próprio pensamento unilateral produziu, a razão encontra seus limites.
Jung acrescenta:
“Defrontamo-nos assim com um conflito aparentemente insolúvel, ao qual a razão humana só pode oferecer soluções aparentes, ou falsos compromissos.”
(JUNG; WILHELM, 2025, p. 32–33).
Essa passagem desloca profundamente o problema.
Talvez não se trate de descobrir qual dos polos deve vencer.
Talvez o próprio esforço de fazer um deles triunfar definitivamente seja parte do impasse.
Se toda solução produzida pela razão apenas reorganiza o conflito sem verdadeiramente transformá-lo, surge uma pergunta mais difícil:
é possível construir uma posição que não resulte simplesmente da vitória de um lado sobre o outro?
Essa questão atravessa não apenas nossas ideias, mas nossa própria personalidade.
Porque os opostos não existem somente fora de nós.
Aquilo que defendemos e aquilo que rejeitamos também podem representar movimentos internos que ainda não fomos capazes de reconhecer como pertencentes à mesma psique.
É relativamente fácil sustentar uma identidade quando tudo aquilo que a contradiz é projetado para fora.
Muito mais difícil é reconhecer que a contradição também nos habita.
Nesse ponto, Jung sustenta:
“Quem rejeitar esses dois caminhos, confrontar-se-á com a exigência da indispensável unidade da personalidade, e com a necessidade de buscá-la.”
(JUNG; WILHELM, 2025, p. 33).
A unidade da personalidade, porém, não significa uniformidade.
Não significa eliminar as contradições até que reste uma consciência perfeitamente coerente, imune à dúvida e livre de tensão.
Talvez signifique justamente o contrário:
ser capaz de suportar a existência dos opostos sem precisar destruir imediatamente um deles.
Há uma diferença profunda entre integração e vitória.
Na vitória, um polo permanece e o outro é derrotado.
Na integração, a relação entre ambos se transforma.
E talvez seja precisamente aí que a razão precise abandonar a fantasia de onipotência para tornar-se novamente instrumento de compreensão.
Jung escreve:
“Esta sua consciência onicompreensiva deve-se ao fato de que o sic et non, em sua proximidade originária, correspondia à situação da mentalidade primitiva. Mesmo assim, era impossível não sentir o choque dos opostos e isto determinava a busca daquele caminho que os hindus chamam de nirdvandva, isto é, livre de opostos.”
(JUNG; WILHELM, 2025, p. 33).
O sic et non: o sim e o não.
A proximidade dos contrários.
O choque dos opostos.
Talvez exista aí uma resposta provisória para a pergunta que abriu este ensaio.
Ser capaz de sustentar uma convicção não exige transformar o outro em inimigo.
Reconhecer o conflito não exige sucumbir a ele.
E possuir razão sobre alguma coisa não nos transforma em proprietários da Razão.
Há uma possibilidade que não consiste simplesmente em escolher um polo e destruir o outro.
Um caminho em que consciência e inconsciente, certeza e dúvida, vontade e limite possam entrar em relação sem que um precise desaparecer para que o outro exista.
É nesse sentido que Jung evoca o nirdvandva: o “livre de opostos”.
Não necessariamente porque os opostos deixem de existir.
Mas talvez porque já não precisemos permanecer aprisionados à exigência de que um deles aniquile o outro.
E aqui a pergunta inicial retorna sob outra forma.
Quando alguém precisa impor sua razão a qualquer custo, estamos realmente diante do triunfo da razão?
Ou diante de uma consciência tão identificada consigo mesma que já perdeu a capacidade de reconhecer seus próprios limites?
Talvez a verdadeira ameaça à razão comece justamente quando ela se torna incapaz de reconhecer aquilo que a contradiz.
Nesse momento, vestida com as roupas da lucidez, a unilateralidade pode já estar muito próxima daquilo que acredita combater.
E talvez seja justamente aí que a sabedoria comece:
quando já não precisamos vencer o oposto para sermos capazes de encontrá-lo.
Notas
A palavra “loucura” é utilizada no título em sentido metafórico, referindo-se à possibilidade de uma consciência tornar-se unilateral, rígida e incapaz de reconhecer seus próprios contrários. Não corresponde, neste ensaio, a uma categoria diagnóstica ou à atribuição de transtorno mental a indivíduos ou grupos.
O conceito de nirdvandva é empregado conforme apresentado por Jung na passagem citada, como “livre de opostos”. Não é utilizado aqui como sinônimo de Nirvana.
Referência bibliográfica
JUNG, Carl Gustav; WILHELM, Richard. O segredo da flor de ouro: um livro de vida chinês. Tradução de Dora Ferreira da Silva e Maria Luiza Appy. 15. ed., 13. reimpr. Petrópolis, RJ: Vozes, 2025.
ISBN: 978-85-326-0382-1.