O inconsciente coletivo é, para Jung, o substrato psíquico comum à humanidade: uma camada profunda da psique que ultrapassa diferenças individuais, culturais e históricas e carrega predisposições fundamentais de representação e ação. Não consiste apenas de conteúdos capazes de algum dia tornarem-se conscientes, mas também de disposições latentes para reagirmos de maneiras semelhantes diante de certas experiências humanas.
Tal perspectiva talvez nos ajude a compreender alguns comportamentos coletivos que atravessam a contemporaneidade.
Quando a consciência permanece pouco diferenciada em relação ao inconsciente, o indivíduo tende a recorrer àquilo que há de mais automático e instintivo para responder às situações da vida. Em circunstâncias simples, isso pode ser perfeitamente funcional. Nem toda decisão humana exige elaboração profunda; seria, aliás, insustentável submeter cada pequeno gesto à assembleia geral da consciência.
O problema começa quando respostas primitivas são convocadas para resolver problemas que já não são primitivos.
Dilemas éticos, conflitos sociais, diferenças culturais, transformações de valores e tudo aquilo que ameaça nossa visão de mundo exigem mais do que reflexos defensivos. Exigem a penosa capacidade de tolerar contradições, suspender certezas, reconhecer limites e permitir que alguma parcela do desconhecido atravesse as fronteiras do que já sabemos.
E é precisamente aí que a coisa começa a incomodar.
Jung escreve:
“O indivíduo que depende de um modo preponderante do inconsciente, e é menos propenso à escolha consciente, tem a tendência para um acentuado conservadorismo psíquico. Este é o motivo pelo qual os primitivos não mudam no decurso dos milênios, sentindo medo diante de tudo o que é estranho e incomum. Tal característica poderia levá-los à desadaptação e, portanto, aos maiores perigos anímicos, isto é, a uma espécie de neurose.”
— C. G. Jung, O segredo da flor de ouro, p. 31
É difícil ler essas palavras sem lançar os olhos ao nosso redor.
Mais difícil ainda é lê-las sem lançá-los para dentro.
Talvez reconheçamos facilmente esse conservadorismo psíquico nos outros: grupos que transformam convicções em dogmas, indivíduos incapazes de suportar a simples existência de uma perspectiva diferente da sua, comunidades inteiras organizadas em torno de verdades que não podem ser interrogadas sem que o questionamento seja recebido como agressão.
Quando confrontadas, as certezas respondem.
Primeiro, com frases prontas.
Depois, com o aumento do tom.
Por fim, com o ataque.
Diálogo? Enquanto houver concordância.
Debate? Enquanto não houver risco de transformação.
Pensamento? Sim — desde que conduza exatamente ao lugar onde já se estava.
Instala-se então algo semelhante a uma neurose coletiva, continuamente alimentada pelos pares que confirmam a mesma visão de mundo e, curiosamente, também pelos adversários que se oferecem como inimigos necessários. Cada lado encontra no outro a confirmação perfeita da própria narrativa.
E todos seguem absolutamente convencidos de que a inconsciência mora na casa ao lado.
Talvez aí resida uma das ironias mais perversas da psique:
é extraordinariamente fácil perceber a cegueira alheia.
A nossa costuma ser mais discreta.
Mas o que permitiria à consciência ampliar-se para além desse circuito?
Talvez a disposição para tornar-se independente.
Jung escreve:
“Uma consciência mais elevada e mais ampla, que só surgirá mediante assimilação do desconhecido, tende para a autonomia, para a revolta contra os velhos deuses, os quais não são mais do que as poderosas imagens primordiais a que a consciência se achava subordinada.”
— C. G. Jung, O segredo da flor de ouro, p. 31
Assimilar o desconhecido.
Eis uma tarefa muito menos romântica do que parece.
Ampliar a consciência significa permitir que alguma coisa atravesse as muralhas daquilo que já julgávamos saber. Significa admitir que certas verdades pelas quais lutaríamos talvez fossem apenas certezas herdadas; que algumas opiniões das quais nos orgulhamos talvez nunca tenham sido realmente nossas; que parte daquilo que chamamos de caráter pode ser apenas hábito; que determinadas virtudes escondem covardias; e que certas convicções morais talvez sejam apenas medo vestido para uma cerimônia.
A ampliação da consciência tem seu preço.
Ela nos rouba a paz confortável da ilusão. Mostra-nos as fissuras dos sistemas aos quais pertencemos, denuncia incoerências que antes passavam despercebidas e, numa crueldade particularmente elegante, frequentemente nos impede de retornar à ingenuidade anterior depois que alguma coisa foi vista.
Conhecer pode ser um ato profundamente inconveniente.
Há, entretanto, uma liberdade possível nisso.
A possibilidade de não responder exclusivamente aos antigos comandos internos.
De interrogar aquilo que antes apenas obedecíamos.
De escolher onde antes somente reagíamos.
Jung continua:
“Alcançando então a liberdade, poderá romper as cadeias de pura instintividade e chegar a uma situação de atrofia do instinto, ou mesmo de oposição a ele. Esta consciência desenraizada, que não pode mais apelar para a autoridade das imagens primordiais, acede às vezes a uma liberdade prometeica, a um hybris sem deus.”
— C. G. Jung, O segredo da flor de ouro, p. 31
E aqui surge a advertência necessária.
Porque também há delírio na consciência que se acredita soberana.
O indivíduo que rompe determinadas cadeias pode facilmente apaixonar-se pelo som delas caindo.
Pode acreditar que deixou definitivamente para trás aquilo que considera primitivo.
Pode contemplar os demais do alto de sua recém-adquirida racionalidade e diagnosticar, com invejável segurança, a estupidez do mundo.
E talvez, nesse exato instante, esteja novamente possuído.
Desta vez, pela própria consciência.
A emancipação não consiste em exterminar o inconsciente, como se o desenvolvimento humano fosse uma marcha triunfal da razão contra a animalidade. Tampouco significa substituir antigos deuses pelo culto narcísico do intelecto.
Uma consciência que despreza as próprias raízes pode tornar-se tão unilateral quanto aquela que jamais conseguiu delas diferenciar-se.
Talvez a questão esteja menos em escolher entre razão e instinto do que em suportar a tensão entre ambos.
E suportar tensão não é pouca coisa.
Exige alguma base moral e intelectual capaz de acolher o desconforto de não possuir respostas definitivas. Exige permanecer diante da contradição sem recorrer imediatamente ao dogma, à fuga ou ao ataque. Exige reconhecer que liberdade não é ausência de conflito, mas capacidade de habitá-lo sem ser devorado por um dos extremos.
Caso contrário, apenas trocamos uma servidão por outra.
Abandonamos os velhos grilhões e imediatamente confeccionamos novos — desta vez recobertos pela aparência sedutora da liberdade.
Talvez seja precisamente por isso que pensar seja tão difícil.
Não porque nos falte inteligência.
Mas porque pensar verdadeiramente pode exigir que alguma coisa em nós morra.
Uma certeza.
Uma identidade.
Uma lealdade antiga.
Uma imagem cuidadosamente construída acerca de quem somos.
É infinitamente mais confortável permanecer onde já estamos.
Por isso, leitor, talvez a pergunta não seja se você é consciente ou inconsciente.
Todos somos ambos.
A pergunta é outra:
Onde, em você, o desconhecido ainda é tratado como ameaça?
Quais convicções você escolheu — e quais apenas herdou?
Em que momento seu argumento termina e começa sua defesa?
Você é capaz de dialogar com aquilo que ameaça sua visão de mundo ou precisa imediatamente transformá-lo em inimigo?
E, talvez, a pergunta mais desagradável de todas:
quanto da ignorância que você denuncia nos outros continua sendo cuidadosamente preservado dentro de você?
Liberdade talvez não seja vencer o inconsciente.
Talvez seja conhecê-lo o suficiente para que ele não governe em silêncio — sem jamais cometer a arrogância de imaginar que deixaremos de precisar ouvi-lo.
Notas
A expressão “conservadorismo psíquico” é empregada neste ensaio no sentido psicológico presente no argumento de Jung — como tendência à permanência no conhecido e resistência ao que ameaça estruturas psíquicas estabelecidas — e não como denominação de uma posição político-partidária.
O termo “primitivos” pertence ao vocabulário histórico empregado por Jung no texto citado. Sua manutenção ocorre por fidelidade à fonte e não corresponde à terminologia adotada pelo Instituto Coniunctio para designar povos ou culturas.
Referência bibliográfica
JUNG, Carl Gustav; WILHELM, Richard. O segredo da flor de ouro: um livro de vida chinês. Tradução de Dora Ferreira da Silva e Maria Luiza Appy. 15. ed., 13. reimpr. Petrópolis, RJ: Vozes, 2025.
ISBN: 978-85-326-0382-1.